13.1.05

O Crescente



Na tentativa de encontrar uma lógica para esta vida, resolvi um dia procurar na infância as raízes daquilo que, mais tarde, viria a tornar-se importante para mim. E se não tivessem ocorrido determinados factos que ainda hoje tento encaixar na minha lógica, talvez eu nunca me tivesse prestado a iniciar este blog. Isto porque, até há poucos anos, as minhas memórias estavam enterradas e raramente fazia uso delas. Até que, um dia, tornou-se importante eu lembrar-me ...
E assim foi com a história do Crescente. Porque por mais que eu queira dar a impressão de que escolhi um tema tomando por base apenas a imaginação, a verdade é que há sempre algo de real por detrás das escolhas que fazemos ...

Estava com o meu pai sentada no banco da frente de uma Volkswagen Kombi, ainda não tinha completado dois anos de idade, quando, de repente, há uma travagem funda e eu caio desamparada para a frente (nessa época, não havia tanta preocupação com a segurança das crianças). A minha testa acabou por embater contra o botão metálico do rádio do carro, fazendo uma ferida que me obrigaria a levar alguns pontos no hospital. Ferida curada, menina de volta a casa. No entanto, já nessa altura, a menina tinha os seus altos e baixos, e num acesso de teimosia, acabou por, novamente, bater a cabeça, desta vez contra a escada, porque não queria subir para a casa. Ferida de novo aberta, nova ida ao hospital. O enfermeiro diz então que não era possível dar mais pontos na ferida, teria que cicatrizar aberta. E assim surgiu a cicatriz em forma de crescente, que durante muito tempo tentei esconder por detrás de uma franja de cabelo ...

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Odeio dias assim ...

6.1.05

O Verão Quente

A forte impressão que Bruno me deixara depois daquele primeiro encontro iria reforçar-se nas ocasiões seguintes em que nos encontrámos. Aliás, tal impressão era mútua, já que Bruno parecia dar mais atenção a mim do que aos outros primos que entretanto tinham chegado do estrangeiro, onde seus pais se encontravam emigrados, para passarem férias em casa da avó. Não havia brincadeira em que ele não fizesse questão da minha presença. E de tal forma era assim que, mesmo quando os outros rapazes rejeitavam a participação das meninas, Bruno insistia na minha presença, ainda que eu não estivesse muito virada para tal, o que frequentemente acontecia. E já nessa altura eu era mazinha, quando percebi que o deixava desiludido toda a vez que dizia não a um pedido seu e, mesmo assim, não voltava atrás.
Entretanto, Helena arranjara-me uns alfinetes para colocar no peito. Tinham passado uns homens pela aldeia a fazer campanha política para umas eleições. Olhei para os alfinetes que Helena me dera e achei-os verdadeiramente bonitos. Num deles podia ver-se o desenho de um lavrador a segurar uma enxada na mão e a sigla APU. Helena recomendou-me que o guardasse e escondesse, pois não era seguro estar a mostrar aquilo às pessoas. Os pais tinham-lhe advertido que aqueles eram homens maus. Achei fantástica a ideia de estar a esconder algo que os adultos proibiam de usar, até porque, gostara realmente do desenho. Guardei-o dentro da minha bolsa como se fosse uma relíquia. Anos mais tarde, fui à procura de tal peça, mas descobri que a perdera irremediavelmente.

3.1.05

A Lua (parte II)

Os quatro rapazes tratavam da Lua com óleo, limpavam a mecha e recebiam a sua moeda semanal. No entanto, envelheceram e quando um deles adoeceu e se apercebeu que a morte estava próxima, ordenou que o quarto da Lua que lhe pertencia fosse levado com ele para a sepultura. Quando morreu, o prefeito trepou à árvore e, com a tesoura da poda, cortou um quarto da Lua que meteu no caixão. A luz da Lua diminuiu, mas não muito. Quando morreu o segundo, foi-lhe dado o segundo quarto e a luz mingou. Mais fraca ficou ainda quando morreu o terceiro, que também levou o seu quarto e, quando o quarto homem foi sepultado, instalou-se de novo a velha escuridão. Sempre que as pessoas saíam à noite sem lanterna, batiam com as cabeças umas nas outras.

Porém, assim que os quartos da Lua se juntaram no inferno, os mortos, habituados à escuridão, agitaram-se e acordaram do seu sono. Ficaram espantados por poderem ver de novo: a luz da Lua chegava-lhes bem, pois os seus olhos estavam tão fracos que não teriam podido suportar a luz do Sol. Ergueram-se, alegraram-se e retomaram os seus hábitos de vida. Alguns deles dedicaram-se ao jogo e à dança, outros foram para as tabernas onde pediram vinho, embriagaram-se, vociferaram e lutaram e, por fim, pegaram em cacetes e bateram uns nos outros. O barulho era cada vez maior até que, por fim, chegou ao céu.

São Pedro, que guarda as portas do céu, calculou que o inferno se tinha revoltado e chamou as hostes celestes, que lutavam contra o maligno, porque este e os seus associados pretendiam assolar a morada dos abençoados. Como, porém, elas não vinham, São Pedro montou no seu cavalo, atravessou as portas do céu e foi ao inferno. Aí, sossegou os mortos, fê-los voltar de novo à sepultura e levou com ele a Lua, pendurando-a no céu.

Jacob e Wilhelm Grimm / A Lua

A Lua




Em tempos que já lá vão, havia uma terra onde a noite era sempre escura e o céu estendia-se sobre ela como um lenço negro, pois ali a Lua nunca subia e nenhuma estrela piscava na escuridão. Na altura da criação do mundo, a luz da noite era suficiente. Uma vez, saíram desta terra em peregrinação quatro rapazes e chegaram a um outro reino onde, quando à noite o Sol desaparecia atrás dos montes, havia uma esfera brilhante pendurada num carvalho, que deitava uma luz suave em todas as direcções. Devido a ela, era possível ver e distinguir tudo muito bem, embora não fosse uma luz tão forte como a do Sol. Os rapazes pararam e perguntaram a um lavrador, que passava por ali com o seu carro, que luz era aquela. "Aquilo é a Lua", respondeu ele, "o nosso prefeito comprou-a por três moedas e pendurou-a no carvalho. Tem de lhe deitar óleo todos os dias e mantê-la limpa, para que ela não deixe de brilhar. Por isso pagamos-lhe uma moeda por semana."

Assim que o lavrador partiu, disse um deles: "Esta lanterna fazia-nos jeito, também lá temos um carvalho tão alto como este, onde podemos pendurar. Que grande alegria deixar de tropeçar na escuridão!" "Sabem que mais?", disse o segundo, precisamos de arranjar um carro e um cavalo e levar a Lua embora. As pessoas daqui bem podem comprar uma outra." "Eu trepo com muita facilidade", disse o terceiro, "trago-a já para baixo!" O quarto trouxe um carro e um cavalo e o terceiro trepou pela árvore acima, fez um buraco na Lua, passou-lhe um fio e fê-la descer. Assim que a Lua brilhante ficou dentro do carro, deitaram-lhe um lenço por cima, para que ninguém se apercebesse do roubo. Levaram-na sem problemas para a sua terra e penduraram-na num alto carvalho. Velhos e novos alegraram-se, quando a nova lanterna começou a estender a sua luz sobre os campos e os quartos e salas se encheram dela. Os anões saíram dos seus buracos nas rochas e os pequenos elfos, com os seus casacos vermelhos, faziam rodas nos prados.

30.12.04

Ventania

Ouço o vento que assobia ao passar pela fresta da porta de entrada do escritório. Como me sinto bem ao ouvir esse som ... Num segundo, a UPS que está ligada ao computador apita uma, duas, três vezes ... Desde pequena que gosto do vento, principalmente daquele que sopra antes de uma tempestade. Imaginava que podia controlá-lo e que ele falava comigo. Sentia-me tão bem nos dias de ventania que ia de próposito à varanda de casa só para o sentir no rosto. Aquela varanda entrou muitas vezes nos meus sonhos. Quando sonhava que estava a ser perseguida, era por ali que eu fugia. Subia no alpendre e voava. Cheguei a atravessar oceanos, a fugir dos meus perseguidores. Ainda hoje, quando ando na auto-estrada (não se preocupem, eu detesto conduzir, principalmente em auto-estradas!), abro a janela do carro e deixo que o vento bata com toda a sua força no meu rosto.
O vento pode trazer destruição (e que destruição!), mas nas minhas memórias ele fará sempre parte das melhores recordações da infância.

28.12.04

Tsunami

E pensar que houve civilizações inteiras que desapareceram por causa de um tsunami ... Acho que é um pesadelo que todos nós já tivemos um dia: uma onda gigante a surgir de repente e nós a afogarmo-nos nela. Houve uma altura da minha vida em que este pesadelo era quase diário. E isto havia de acontecer precisamente na época de Natal ... Civilizações inteiras que desapareceram perante a fúria da Natureza ...
Para quem interessar, encontrei este blog de ajuda às vítimas do maremoto na Ásia:
http://tsunamihelp.blogspot.com

3.12.04

Pedro de R.


André Gonçalves - "Assunção de N.Senhora"


O tempo corria lentamente naqueles finais de século XVII. Pedro crescera em estatura, mas também em conhecimento, graças às lições que tivera de um tio padre. Aprendera a ler a Bíblia com ele, e adquirira uma caligrafia invejável, tendo em conta que não iria dedicar a sua vida aos pergaminhos. Entretanto, Isabel, sua mãe, enviuvara novamente, situação algo incomum para a época, dado que, normalmente, eram os maridos que sobreviviam às esposas, que frequentemente morriam vítimas de partos difíceis. Como pragmática e calculista que era, Isabel tratou logo de arranjar novo casamento. Não podia dar-se ao luxo de depender da benevolência do seu filho Pedro, então com quinze anos de idade, único herdeiro legítimo daquela fazenda. Durante todos aqueles anos, vivera com João Gonçalves e os filhos naquela propriedade, gerindo-a até que Pedro atingisse a maioridade. Sabia que Pedro sofrera com a morte do seu padrasto, pois João Gonçalves sempre o tratara como se fosse o seu próprio filho. Mas sabia também que mais cedo ou mais tarde, Pedro iria casar-se e então o que seria dela naquela casa? Por isso, tratou logo de arranjar casamento com Domingos Francisco, que também enviuvara recentemente. Naquele tempo, as mulheres pouco mais podiam fazer do que tentar arranjar casamentos convenientes, de forma a não ficarem tão dependentes dos filhos.
Seria a última vez que teria de recorrer a tal estratagema. Mal Pedro atingia a maioridade e a sua mãe morria. Estávamos em 1691. A partir de agora ele seria o único herdeiro de toda aquela grande propriedade.