
Os dias corriam depressa no verão quente de agosto de 1976. Quente porque, por onde quer que se andasse, os incêndios marcavam a paisagem, deixando nas crianças um sentimento inexorável de terror perante a visão das chamas do inferno, que a tudo consumiam impiedosamente. O som dos sinos a tocar a rebate completavam o cenário, lembrando uma sinfonia mórbida que imediatamente ficou associada à morte. Aliás, a morte de alguém fazia-se anunciar pelo mesmo repique dos sinos, pelo menos assim pareceu à mente das crianças. E mal se ouvia aquele repicar, as pessoas corriam com baldes e enxadas para o local do incêndio, na tentativa de evitar que as chamas fizessem ainda mais danos às suas propriedades. No entanto, em Rapijães, apesar das pequenas tragédias próprias da época, havia felicidade no ar. Depois de tantos anos de separação, todos os irmãos estavam reunidos novamente e aproveitavam para matarem saudades uns dos outros. Eu tinha ficado a conhecer tantos tios e primos que, por vezes, até perdia a conta. Quantos seriam no total? Uns quinze primos? Talvez mais ... Tinha que parar momentaneamente para ordenar os nomes de todas aquelas pessoas na cabeça. Como agosto era o mês dos emigrantes, toda a gente marcava os casamentos para aquela altura. Também perdera a conta das comunhões e aniversários a que fui convidada. Não havia dia em que não houvesse uma festa. Num dia, ia-se à praia. Noutro, ia-se à feira, como a de Barcelos, sempre com muita música e ranchos folclóricos. Algumas músicas deixavam-me embaraçada. Precisavam de dizer tantos palavrões? Tínhamos sido educados para não dizermos palavrões, por isso ficava indignada ao ouvir músicas tão brejeiras. Uma das minhas tias estava para casar. Iam fazer a festa em casa e depois os noivos emigrariam para França. Mais uma filha que se ia embora, deixando a minha avó cada vez mais sozinha. Em casa foi uma correria total até ao dia do casamento, com as mulheres a fazerem os bolos para a festa, ao som da música dos Abba. Enquanto as mulheres preparavam os bolos, eu ficava a ouvir as músicas. Gostei imediatamente da banda. Ficaria para sempre associada a esse período da infância.
Entretanto, nos poucos dias em que não havia festa para ir, ou não podia ir à praia, aproveitei para explorar as redondezas. Aquela casa era mesmo o meu castelo. Um dia entrei na adega para buscar vinho e espantei-me com a fechadura. Era enorme! Perguntei-me como podiam fazer chaves daquele tamanho! Não fazia ideia de quão antigo aquele objecto era. Entrei lá para dentro, o chão em terra batida, com tonéis encostados à parede e uma lampadazinha no tecto para iluminar o local. Fazia muito frio lá dentro. Virei-me para o meu tio e disse-lhe "Parece a adega do Sargento Garcia". Ele não percebeu, não conhecia o Zorro. Reparei que também ali havia muitas teias de aranha e fiquei preocupada. O meu tio riu-se perante o meu medo. "Elas é que têm medo de nós", dizia ele. Mesmo assim, fiquei alerta. Lembrava-me das aulas de Ciências e do veneno da Viúva Negra. "Será que as Viúvas Negras desenvolviam-se nestes ambientes? Como podiam ficar tão descansados em relação às aranhas?".
Saímos da adega em direcção à casa. Ao passar em frente à Casa da Madrinha, olhei com receio. Um dia havia de ultrapassar o medo de lá entrar ...