21.3.05

O suicida




Cinco Andares
Quatro Cervejas
Três Pipocas
Dois Whiskeys
Uma Desilusão
Compressor de Vida.


D.L. Carvalho

Acabara de acordar do sono, ou pelo menos, assim lhe tinha parecido. Olhou em frente, aos pés da cama, e lá estava a figura a contemplá-lo. Cumprimentou-o, sem ainda pensar na estranheza de tal presença, e perguntou-lhe como era "lá em cima". A figura respondeu-lhe que era bom, mas faltava cerveja ... Tinha-se atirado da varanda do quinto andar de um edifício há menos de uma semana. Mais tarde, alguém lhe dedicaria uns versos ...

16.3.05

A Floresta



Come closer and see
See into the trees
Find the girl
If you can
Come closer and see
See into the dark
Just follow your eyes
Just follow your eyes
I hear her voice
Calling my name
The sound is deep
In the dark
I hear her voice
And start to run
Into the trees
Into the trees

Into the trees

Suddenly I stop
But I know it's too late
I'm lost in a forest
All alone
The girl was never there
It's always the same
I'm running towards nothing
Again and again and again and again

The Cure

Muito antes de compreender a letra desta música, já me tinha identificado com a sua melodia. Ainda me recordo da primeira vez que a gravei e dei a ouvir à minha irmã. Com cara de desagrado, ela virou-se para mim e disse-me: "Que canção mais mórbida"!
Desde que me conheço por gente, que sempre fui assim, meio virada para a realidade, meio virada para o surreal. Talvez isso explique o porquê de captar as subtis manipulações do mundo em que vivemos ...

12.3.05

Pedro de Rapijães


Cena da Guerra dos Emboabas num ex-voto do séc. XVIII
Autor Desconhecido

A vida de Pedro mudara completamente depois da morte de Isabel. Nos anos que se seguiram à perda da mãe, o jovem arcara com o sustento dos irmãos, tomando todas as decisões necessárias, de forma a garantir-lhes o futuro. Tal responsabilidade impediu-o de se casar mais cedo, tendo sido, por isso, o último dos irmãos a contrair matrimónio. Casaria com Maria de Azevedo, cujo acordo já havia sido formalizado pelos pais dos jovens, pouco antes da morte de Isabel. Porém alguns anos haveriam ainda de correr antes de Pedro decidir finalmente dar o passo definitivo. Com efeito, onze anos após a morte da mãe, todos os irmãos, exceptuando João, encontravam-se casados e com descendência. Pedro contava já com quatro filhos. O último tinha-lhe nascido há poucos dias. Dera-lhe o nome de Teodósio, em homenagem a D. Teodósio, 7º Duque de Bragança, cujo filho, D. Duarte, fora Senhor de Vila do Conde. A fidelidade à Casa de Bragança tinha por base um motivo muito concreto: as terras de que usufruíam pertenciam à Casa Real, a quem tinham de pagar anualmente os foros. E estes eram rigorosamente cumpridos, todos os anos, por altura do São Miguel. Não era de admirar, portanto, que a família resolvesse homenagear os seus senhorios, colocando os nomes deles nos seus próprios filhos.

Entretanto, havia já algum tempo que Pedro não recebia qualquer notícia do João. Desde o dia em que embarcara para o Brasil, tinha-lhe sido enviada apenas uma carta. Nela, o irmão relatava que havia rebentado uma guerra no interior do Brasil, na região das Minas, e ele fora destacado para a zona. O irmão contara-lhe na carta que os nativos chamavam-lhes desdenhosamente de "emboabas", pelo que a guerra acabaria por ser conhecida por esse nome. Mas nada mais lhe fora adiantado. Receava pela vida do irmão, perdido no meio de uma selva onde os perigos espreitavam a cada canto, quando não eram as doenças tropicais que os matavam. Se Deus quiser, João havia de vencer essa batalha, mas intimamente sabia que, o que quer que acontecesse, nunca mais voltaria a ver o irmão.

23.2.05

Mensagem



A pesquisa tinha chegado a um beco sem saída. Não era possível avançar sem tentar conhecer mais pormenores acerca dos antepassados já descobertos e esses pormenores estavam enterrados algures, nalgum livro abandonado, num qualquer arquivo de província. As raparigas tinham decidido interromper a sua viagem no tempo. Era Natal e, embora estivessem de férias, não podiam dedicar-se tanto quanto queriam a essas actividades. Na verdade, as pesquisas davam muito trabalho e tempo era algo de que ambas sentiam muita falta. Ainda para mais, nos arquivos, nada estava organizado como elas gostariam que estivesse. A caligrafia dos documentos originais era, regra geral, péssima e, em muitos casos, impossível de ler. Luísa brincava dizendo que o padre devia ter bebido um bocado naquele dia, porque o livro tinha marcas de líquido entornado. Pior era quando os livros exibiam traços de fogo, de alguma fagulha que se desprendeu da lareira. Aquilo deixava-as profundamente tristes. Realmente, havia pessoas que eram muito descuidadas. E isso ficava-se a saber, mesmo trezentos anos depois ...
Porém, em vez de desanimarem, estas constatações apenas aguçavam ainda mais a curiosidade das primas. Esperavam ter elementos suficientes que as pudessem transportar ainda mais longe no tempo. Luísa já tinha experimentado essa sensação. Tivera em mãos um livro do século XVI. Como era difícil compreender aquela linguagem. Esperava que um golpe de sorte a iluminasse, de forma a compreender aquelas letras arcaicas, como naquela cena da Bíblia, em que, abençoados pelo Espírito Santo, os apóstolos começaram a falar línguas estrangeiras. Por mais obstáculos que se interpusessem à sua frente, elas não iriam desistir. Tinham sido contaminadas pelo vírus do Conhecimento, e agora que, finalmente, tinham encontrado o fio de Ariadne, nada as impediria de entrar no complexo labirinto do Tempo.

18.2.05

A Presença



Exorcismo dos Demónios
1297-99
Frescos de Giotto
Basílica de São Francisco de Assis


O dia fora cansativo. Deitara-se já tarde da noite no sofá da sala, por cima do braço direito, em péssima posição para dormir. Ainda assim, adormeceu depressa. Não se lembra em que altura do sono foi, mas sentiu a Presença a querer entrar no corpo, pelas costas. Não a via, mas sentia-a. Uma onda de terror invadiu-a e depressa entrou em pânico. Começou a rezar. O pesadelo terminou.

10.2.05

O Verão Quente




Os dias corriam depressa no verão quente de agosto de 1976. Quente porque, por onde quer que se andasse, os incêndios marcavam a paisagem, deixando nas crianças um sentimento inexorável de terror perante a visão das chamas do inferno, que a tudo consumiam impiedosamente. O som dos sinos a tocar a rebate completavam o cenário, lembrando uma sinfonia mórbida que imediatamente ficou associada à morte. Aliás, a morte de alguém fazia-se anunciar pelo mesmo repique dos sinos, pelo menos assim pareceu à mente das crianças. E mal se ouvia aquele repicar, as pessoas corriam com baldes e enxadas para o local do incêndio, na tentativa de evitar que as chamas fizessem ainda mais danos às suas propriedades. No entanto, em Rapijães, apesar das pequenas tragédias próprias da época, havia felicidade no ar. Depois de tantos anos de separação, todos os irmãos estavam reunidos novamente e aproveitavam para matarem saudades uns dos outros. Eu tinha ficado a conhecer tantos tios e primos que, por vezes, até perdia a conta. Quantos seriam no total? Uns quinze primos? Talvez mais ... Tinha que parar momentaneamente para ordenar os nomes de todas aquelas pessoas na cabeça. Como agosto era o mês dos emigrantes, toda a gente marcava os casamentos para aquela altura. Também perdera a conta das comunhões e aniversários a que fui convidada. Não havia dia em que não houvesse uma festa. Num dia, ia-se à praia. Noutro, ia-se à feira, como a de Barcelos, sempre com muita música e ranchos folclóricos. Algumas músicas deixavam-me embaraçada. Precisavam de dizer tantos palavrões? Tínhamos sido educados para não dizermos palavrões, por isso ficava indignada ao ouvir músicas tão brejeiras. Uma das minhas tias estava para casar. Iam fazer a festa em casa e depois os noivos emigrariam para França. Mais uma filha que se ia embora, deixando a minha avó cada vez mais sozinha. Em casa foi uma correria total até ao dia do casamento, com as mulheres a fazerem os bolos para a festa, ao som da música dos Abba. Enquanto as mulheres preparavam os bolos, eu ficava a ouvir as músicas. Gostei imediatamente da banda. Ficaria para sempre associada a esse período da infância.

Entretanto, nos poucos dias em que não havia festa para ir, ou não podia ir à praia, aproveitei para explorar as redondezas. Aquela casa era mesmo o meu castelo. Um dia entrei na adega para buscar vinho e espantei-me com a fechadura. Era enorme! Perguntei-me como podiam fazer chaves daquele tamanho! Não fazia ideia de quão antigo aquele objecto era. Entrei lá para dentro, o chão em terra batida, com tonéis encostados à parede e uma lampadazinha no tecto para iluminar o local. Fazia muito frio lá dentro. Virei-me para o meu tio e disse-lhe "Parece a adega do Sargento Garcia". Ele não percebeu, não conhecia o Zorro. Reparei que também ali havia muitas teias de aranha e fiquei preocupada. O meu tio riu-se perante o meu medo. "Elas é que têm medo de nós", dizia ele. Mesmo assim, fiquei alerta. Lembrava-me das aulas de Ciências e do veneno da Viúva Negra. "Será que as Viúvas Negras desenvolviam-se nestes ambientes? Como podiam ficar tão descansados em relação às aranhas?".
Saímos da adega em direcção à casa. Ao passar em frente à Casa da Madrinha, olhei com receio. Um dia havia de ultrapassar o medo de lá entrar ...

27.1.05

Pedro de Rapijães


Natureza Morta com Doces e Barros
Josefa de Óbidos - 1676


Sozinho no mundo, assim estava Pedro em finais de 1691. Com apenas vinte anos, órfão de pai, mãe, padrasto e avós, o jovem ficara com a pesada tarefa de tratar do futuro dos irmãos mais jovens e ainda gerir a grande propriedade que lhe coubera em herança. A primeira atitude que tomou foi de emendar o nome. A partir de agora assinaria como "Pedro Pires de Sá". Não lhe tinham dito sempre que descendia dos Sás de Vila do Conde? Pois então iria assumir o nome de família que lhe vinha por parte dos bisavós paternos. Agora que pensava nisso, interrogava-se sobre a estranha morte do pai. Morrera de repente, devido a um acidente de cavalo. Um vizinho tinha-o encontrado sem vida na estrada, aparentemente em consequência da queda que sofrera, e veio dar a notícia. Nunca conhecera o pai e tão pouco os avós maternos. Parecia que a mãe esquivava-se de falar neles. Mas sabia que o avô António era homem do mar. Talvez fosse essa a razão por que Isabel raramente falasse nele. Era filha de um casamento já tardio, em que a ausência paterna era sentida durante largos meses. E isso levou a que alimentasse algum ressentimento, mas nunca viria a saber com certeza, nunca tivera muito à vontade com a mãe.
O que sabia agora era que teria de tratar do futuro dos irmãos, arranjando-lhes bons casamentos e a tal carreira militar para o João. Sim, o futuro do João já tinha sido decidido. Seria capitão e partiria para o Brasil. Uma viagem só de ida, da qual nunca mais regressaria ...

17.1.05

Mensagem

À procura de entendimento e de respostas às questões mais íntimas do ser, Luísa encontrava em Helena o apoio que necessitava para prosseguir a sua busca, algo que não veria em mais ninguém da família. Sentia que Helena, de certa forma, a compreendia, e que também ela procurava o mesmo. Espantosamente, porém, Luísa nunca pensara em Helena como fiel aliada, e por vezes até achava graça ao entusiasmo da prima, que muitas vezes ultrapassava o seu próprio entusiasmo. Era Helena que se disponibilizava sempre a visitar aquele arquivo poeirento e em péssimas condições, praticamente esquecido pelas autoridades locais, como aconteceu daquela vez que foram a Barcelos. Saíram de lá com dores de cabeça, porque os livros ainda não tinham conhecido qualquer tipo de tratamento e o pó que levantavam deixava qualquer um mal disposto. Se nada fosse feito, qualquer dia não haveria mais livros para consultar naquele arquivo ... Mas tudo isto compensava quando traziam para casa mais um dado precioso que as ajudaria a compor o puzzle que é uma árvore genealógica. E quanto mais avançavam nessa jornada, mais Luísa se apercebia de que a sua intuição estivera sempre correcta. E isto deixava-a particularmente feliz porque intimamente sabia que por mais que lhe dissessem o contrário, por mais que lhe ensinassem o que devia pensar e em que devia acreditar, só a ela caberia desvendar a Verdade. E a verdade estava nos seus sonhos de criança, naquilo em que um dia acreditou e que, misteriosamente, pareciam querer destruir agora. Lembrava-se da princesa que se vestia de homem para proteger o reino. Aquilo comovia-a tanto que chegava a chorar em determinados episódios. A Princesa Safiri e a sua cruzada, as Cruzadas, sempre as Cruzadas a atravessarem-se misteriosamente na sua vida ...