
As férias já estavam a chegar ao fim, mas as crianças mal tinham reparado que já se passara quase um mês de folia. Tinham sido dias de muita brincadeira e descoberta e mal nos déramos conta da passagem do tempo. É verdade, confesso que, nesses anos, se havia algo que não me preocupava minimamente era a passagem do tempo. E, embora toda a minha vida me tivesse sentido muito mais velha do que realmente era, por outro lado, procurei manter sempre bem acesas as memórias de infância, como uma espécie de remédio caseiro que podia utilizar nos momentos de crise. Sim, eu era a mais velha das crianças, não apenas por ter nascido primeiro, mas, sobretudo, porque sempre fora muito ajuizada. Desde muito cedo aprendera o significado da palavra "sacrifício". E de tão certinha que era, os rapazes haviam de inventar uma alcunha especial para mim - velha. Claro que havia de ser o meu irmão a ter uma ideia tão original. Os outros limitavam-se a repetir por arrasto.
Entretanto, os pais de Helena tinham começado os preparativos para retornarem à Alemanha. Normalmente, eles eram sempre os primeiros a ir embora e aquele ano não iria ser excepção. Só tinham de acabar de pôr em ordem as últimas burocracias pendentes, terminar as pequenas obras que faltavam na casa e prepararem-se para realizar a longa viagem de automóvel, geralmente feita de um só fôlego, quase sem descanso, rumo à Alemanha. E então, a moradia nova, até então cheia de vida, hibernava um ano inteiro, totalmente fechada, reabrindo-se apenas no verão seguinte.
Também eu já preparava as minhas malas (onde é que vou dormir quando os pais de Helena se forem embora?), arrumando algumas coisas de que não iria fazer mais uso, porém no nosso caso, não havia certeza se poderíamos voltar no ano que vem como os outros. Sabia que a minha mãe sofria com a partida. Aqueles preparativos todos, aquela tristeza no ar, faziam-na lembrar-se daquele dia em que fora despedir-se do pai que se encontrava doente na cama, "já demente", como diziam na altura, há cerca de dez anos. Tinha ido dar-lhe um beijo de despedida, mas o pai virara-se para ela e, num momento de lucidez, disse-lhe: "Sei que não te volto a ver, que te vais embora. Mas não te esqueças de Portugal". E chorou de seguida. Ninguém soube explicar como ele tivera conhecimento da viagem, ou como, na confusão da sua mente, ele compreendera tudo o que estava a acontecer. Talvez, afinal, estivessem enganados, talvez a doença de que ele padecesse não fosse demência, mas sim, lapsos de memória, aquilo que futuramente ficaria conhecido como doença de Alzheimer. E, talvez, num momento de lucidez, ele tivesse compreendido que a filha ia emigrar. O certo é que ela partiria com mágoa no coração e, anos mais tarde, quando soube da morte do pai, lá longe onde vivia, nunca mais deixou de se sentir culpada por o ter deixado. E agora que ia partir novamente, essas lembranças acorriam-lhe à mente mais uma vez. E o peso dessa mágoa fazia com que sempre que nos falava do avô, o fizesse com admiração. Que era muito alto e magro, que lia muito, que era inteligente e educado, que tinha desafiado a família para casar com a avó. Parcialmente deserdado, foi o castigo que lhe impuseram. Mesmo assim, ficara com a casa e a incumbência de cuidar da mãe na velhice.
E, sem saber,a minha mãe, ao contar essas histórias tristes, acabaria por me influenciar muito mais do que ela podia imaginar. Talvez por nunca ter conhecido o avô, ou não encontrar alguém com quem me pudesse identificar, ou talvez ainda por algum livro que li e me tivesse inconscientemente influenciado, talvez, enfim, por todas estas razões juntas e outras que não consigo descortinar, eu acabasse por idealizar o meu avô e transformá-lo numa espécie de fantasma, mais um a juntar à minha vida, mais um a fazer companhia ao de Pedro Pires, seu legítimo antepassado.