1.11.06

O Círculo



Visitar Evoramonte era algo que estava definitivamente fora dos meus planos. Eu já perdera a conta ao número de monumentos antigos que visitara naquelas férias e a não ser o facto de o castelo ter quase setecentos anos, nada mais havia ali que me pudesse interessar ou constituir motivo de novidade para mim. Assim pensava eu enquanto seguia pela estrada fora. Mas quando, ao longe, avistei-o no alto daquela colina, tão solitário e ao mesmo tempo tão senhor de si próprio, pensei comigo mesma que certamente não viria mal nenhum ao mundo se eu perdesse algum tempo naquelas paragens, nem que fossem apenas dois minutos para eu dar uma espreitadela. E assim fui, por descargo de consciência, sem esperar grandes surpresas daquela visita. Aliás, se havia algo que me pudesse verdadeiramente surpreender naquela tarde de verão era que o sol, de repente, resolvesse desaparecer dos céus e, com toda a pujança dos elementos, uma tempestade apocalíptica se abatesse violentamente contra aquela torre, ao ponto de não só corrermos o risco de nos tornarmos prisioneiros dela, como também de vermos correr por água abaixo todos os planos que fizéramos para aquela tarde.

Felizmente que as nuvens contrariavam os meus pensamentos, indicando não apenas que tão cedo não haveria chuva por ali, como também o juízo final ainda estava muito longe, pois o sol continuava a percorrer placidamente o seu caminho no firmamento, para a alegria dos turistas que por ali passavam e se admiravam com a imponência daquela construção. O sol, aliás, ainda brilhava alto, desafiando por todos os meios as grossas paredes de pedra da torre, cujas minúsculas janelas, numa atitude de permanente desafio, apenas deixavam entrar um fiapo de luz, como que a lembrar ao sol que lá fora mandava ele, mas dentro da torre era o reino da escuridão.




Subi então o escadório que dava acesso às várias salas do castelo. Fiquei desapontada ao verificar que as mesmas estavam vazias e, surpreendida comigo própria, perguntei-me por que razão estaria à espera de outra coisa. Tirei a câmara digital da bolsa e comecei a fotografar tudo. Colunas, paredes, escadas e janelas. De vez em quando, um ou outro turista. Era o melhor que podia fazer naquela altura. Lá fora, as nuvens passavam e o tempo também. Estava bem de se ver que não havia mais nada ali para fotografar. Fui-me embora depressa. Eu bem sabia que aquela visita não seria interessante ...

Foi então que, uma semana mais tarde, reparei no círculo. Aquilo que os meus olhos não haviam captado naquele dia, fora gravado pela câmara digital. Como um intruso que entra sem pedir licença, o círculo ficara impresso na minha fotografia. Procurei em vão encontrar uma explicação lógica para aquela presença. Sem sucesso. Efeito de luz ou defeito da câmara não explicavam aquela mancha de energia que, insistentemente, sobressaia na foto. Estava para esquecer o assunto. Não havia motivos para perder tempo com uma mancha fotográfica que, quando ampliada, mostrava graduações de textura e cor. Era óbvio que aquilo não passava de energia. Foi então que subitamente compreendi que, em todo aquele tempo em que estivera a fotografar no castelo, as salas nunca tinham estado vazias ...

1.9.06

Disarm


Moon and Yew Tree - Mike Ferraro

Disarm you with a smile
And cut you like you want me to
Cut that little child
Inside of me and such a part of you
Ooh, the years burn

I used to be a little boy
So old in my shoes
And what I choose is my choice
What's a boy supposed to do?
The killer in me is the killer in you
My love
I send this smile over to you

Disarm you with a smile
And leave you like they left me here
To wither in denial
The bitterness of one who's left alone
Ooh, the years burn
Ooh, the years burn, burn, burn

I used to be a little boy
So old in my shoes
And what I choose is my voice
What's a boy supposed to do?
The killer in me is the killer in you
My love
I send this smile over to you

The killer in me is the killer in you
Send this smile over to you
The killer in me is the killer in you
Send this smile over to you
The killer in me is the killer in you
Send this smile over to you

Disarm - Smashing Pumpkins

25.8.06

Reunião



Eu devia ter trazido a máquina fotográfica, mas por algum motivo que me escapa, esqueci-me completamente desse pormenor naquele dia. Nem sequer a papelada que juntara ao longo dos anos - fruto de horas de trabalho a escarafunchar livros antigos - eu me lembrara de trazer para a reunião. A data era importante. Iam estar pessoas mais velhas que conheciam pormenores da história familiar de que mais ninguém parecia recordar-se. Um deles era padre. Também ele, por um qualquer desígnio misterioso, ouvira falar da casa e ambicionara conhecê-la pessoalmente. A ocasião, no entanto, não podia ter sido pior. Ele chegara em pleno funeral de um parente distante, que só conheceria depois de morto. Mas a presença daquele padre ali, durante o funeral, surgido não se sabe bem de onde e reclamando laços familiares com o falecido, assumia aos olhos da família enlutada uma mensagem divina de esperança e fé num dos momentos mais sombrios da existência humana. E então marcou-se a reunião.

A bem dizer, eu não contava com grandes novidades da parte de nenhuma das pessoas que estavam ali. A maioria delas nunca se interessara muito pelo assunto e, para ser sincera, julguei até que quem iria gastar o latim todo naquela reunião era eu. Mas quando o convidado chegou e dirigiu-se para a eira, formou-se logo ali, à volta dele, uma rodinha e eu fiquei em segundo plano. E ele não perderia tempo a tentar lembrar-se daquilo que o avô lhe contara há muitas décadas atrás. Sim, foi ali na eira. Um crime ou um fuzilamento? A ideias baralhavam-se na sua cabeça.

- E sabe há quanto tempo foi? - alguém lhe perguntara.
- E foi aqui ou foi na casa? - perguntou outro.

Não sabia dizer quando. A história parecia ter corrido de geração em geração, porém, inexplicavelmente, ninguém do nosso lado tivera conhecimento dela. Mas que tinha sido na eira, isso estava fora de questão. Lembrava-se de um grupo. Seriam soldados? Várias tentativas e ninguém parecia acertar no alvo. Má pontaria ou má vontade dos atiradores? Era impossível determinar. Até que, por fim, alguém pôs um lençol no condenado e ouviu-se o tiro de misericórdia. Era tudo de que se lembrava. Lamentava-se não ter tentado saber mais quando ainda estavam vivos. "Ora essa. Porque haveria de pedir desculpas?", pensei eu.
A reunião continuou, mas já dentro de portas, com os comes e bebes do costume. Fui buscar a papelada. Era evidente que algo estava a faltar no meu trabalho. Se houve um crime ou fuzilamento, haveria que apurar as razões e as consequências do dito. Destrinçar onde começava a realidade e terminava o mito. Era evidente que tinha de partir para os arquivos novamente.

22.8.06

Évora


Templo de Diana

Estava a tirar umas fotos do Templo de Diana a partir de ângulos diferentes quando reparei numa construção que sobressaia mesmo ao lado.



Era de uma igreja, mas o que me chamou a atenção não foi a igreja em si, mas a imagem da pomba que aparece no alto da parede exterior. A pomba é o símbolo do Espírito Santo e não é muito comum aparecer na entrada das igrejas católicas, por isso mesmo fiquei ainda mais curiosa em saber o nome do templo. Afinal, trata-se da Igreja de São João Evangelista que é, nada mais nada menos, que o autor do Livro do Apocalipse ... O mesmo São João Evangelista que, segundo o famoso romancista Dan Brown, é retratado como uma figura feminina no quadro de Leonardo Da Vinci... Pena é que, para visitar a igreja, uma pessoa tenha de desembolsar 3,00 Euros! Ficou para uma próxima oportunidade tanto esta visita como uma ida à Basílica, que custa outros 3,00 Euros. Em 2000, não se pagava nada para entrar, mas como Portugal está de tanga, todo o dinheirinho que possa entrar nos cofres do Estado dá muito jeito, não é verdade? Mesmo que, para isso, se percam alguns turistas menos afortunados pelo Destino.

21.8.06

Crazy


Jornada Metafísica do Navegante da Mente - Joseph Cusimano

I remember when, I remember, I remember when I lost my mind
There was something so pleasant about that phase.
Even your emotions had an echo
In so much space

And when you're out there
Without care,
Yeah, I was out of touch
But it wasn't because I didn't know enough
I just knew too much

Does that make me crazy ?
Does that make me crazy ?
Does that make me crazy ?
Possibly

And I hope that you are having the time of your life
But think twice, that's my only advice
Come on now, who do you, who do you, who do you, who do you think you are,
Ha, ha, ha, bless your soul
You really think you're in control

Well, I think you're crazy
I think you're crazy
I think you're crazy
Just like me

My heroes had the heart to lose their lives out on a limb
And all I remember is thinking "I want to be like them"
Ever since I was little, ever since I was little it looked like fun
And it's no coincidence I've come
And I can die when I'm done

Maybe I'm crazy
Maybe you're crazy
Maybe we're crazy
Probably


Gnarls Barkley

28.7.06



"Quando tu entras baixam todas a vozes,
Ninguém te vê entrar,
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,
A lua começa a ser real."

Fernando Pessoa

18.7.06

Tomara que chova ...


Adoro dias assim, que anunciam chuva, ou mais propriamente, uma tempestade. É certo que dificilmente haverá um tornado, mas se houvesse, eu não me importava ...

14.7.06

Wishing (If I had a photograph of you)



It's not the way you look,
It's not the way that you smile.
Although there's something to them.
It's not the way you have your hair,
It's not that certain style;
It could be that with you.

If I had a photograph of you,
It's something to remind me.
I wouldn't spend my life just wishing.

It's not the make-up
And it's not the way that you dance,
It's not the evening sky.
It's more the way your eyes
are laughing as they glance
Across the great divide.

If I had a photograph of you,
It's something to remind me.
I wouldn't spend my life just wishing.

It's not the things you say
It's not the things you do
It must be something more
And if I feel this way for so long
Tell me is it all for nothing
Just don't walk out the door.

If I had a photograph of you,
It's something to remind me.
I wouldn't spend my life just wishing.

A Flock of Seagulls